CRÍTICA
"Colostro": O Álbum
do Ano por
Rafael Rudolf
Marli já foi acusada de muitas coisas. Como boa artista
polêmica e controversa, já foi considerada obscena
e hermética. “Colostro”, o mais novo álbum
de Marli, pode receber os mesmos rótulos de alguns
críticos, mas eles não podem negar a maturidade
da intérprete em canções densas como
“Senhora de Vermelho”, “Linha Direta”
e o mais novo sucesso “Galáctica”.
Mas
qual o segredo de Marli? O que há por trás
da intérprete mais hedonista da música popular
brasileira, que continua a nos instigar a cada novo lançamento,
revelando facetas de sua personalidade que julgávamos
já conhecer por completo? A resposta, em “Colostro”,
está na produção refinada, nas letras
embebidas num discurso quase onírico, revelando as
entranhas de Marli do jeito que ela gosta. Ela está
no controle de sua produção artística,
contando com o diálogo de Witched, o produtor e mentor,
com as diversas formas sônicas que formam cada trabalho
de Marli.
Em
“Colostro”, há uma jornada. Marli viaja
por um mundo cruel com delicadeza, descrevendo e interagindo
com personagens complexos. Não se espante se “Colostro”
se transformar em literatura. Há conteúdo
suficiente para um romance complexo – talvez complexo
demais para ser comercializado.
“Mamãe
Satanás” pode chocar alguns, mas é um
delicado manifesto pacifista. Seguida da divertida “Amor
de Urubu (Beijando Uma Velha Feia, Comendo Uma Nega Fedida)”,
a dupla causa um contraste interessante. Se na primeira
metade deste capítulo do álbum Marli pede
o colo da mãe para que esta lhe dê força
para continuar sua jornada, em “Amor de Urubu”
Marli se mostra deliciosamente hedonista. É aqui
que ela recorre aos prazeres no mundo dos mortos, buscando
força no sexo, sem nenhum pudor. Entediada, no final,
Marli se mostra forte. Madonna bateria palmas.
Mas
sim, em “Colostro” há coisa melhor. O
grande momento é justamente o primeiro single do
álbum, “Galáctica”. É aqui
que Marli canta sobre a Criação, amparada
pela refinada produção de Witched. “Vulva
Laica” abre o caminho para a descrição
do Novo Mundo. A partir de “Galáctica”
Marli dá meia-volta em sua jornada, completando seu
ciclo com a deliciosa “O Amor Está no Ar”,
que fecha mais um trabalho exemplar.
A
divulgação do novo trabalho é maciça
na Internet. Comunidades do Orkut, fóruns e sites
são meios de promover “Colostro”. O site
oficial de Marli – www.marli.cjb.net – foi reformulado
e encontra-se sempre congestionado por fãs alucinados.
Não se espante caso esteja fora do ar.
A
forte divulgação de um álbum é
sempre importante para qualquer lançamento, de qualquer
artista, mas no que concerne à Marli, a importância
de uma divulgação forte se faz necessária
por conta de sua polêmica. Uma Marli falsa foi criada
por algum aspirante a artista, tentando denegrir a consolidada
imagem que a Marli original já construiu em torno
de seu trabalho. O esforço dos invejosos é
em vão. A melhor resposta a eles Marli dá
com “Colostro”, com “Amaldiçoada”:
“Você
pode oferecer cada pedaço do meu corpo aos gatos
E tirar essas duas vidas em mim
Mas um dia você vai saber
Qual vai ser o prato servido
Na cozinha do inferno”
Recado
dado.
Avaliação:
****
|