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"Tudo
começou numa surpreendente ligação
da Marli num tórrido domingo à tarde.
Ela estava entusiasmada como eu jamais havia visto
e falou-me a respeito do álbum que compunha
com o Witched, dizendo em suas próprias palavras
que estava cantando as músicas de batom (sic).
Enigmaticamente, descreveu-me então Bailarina,
a música a qual a mesma gostaria que eu elaborasse
dessa vez os arranjos em sua totalidade, diferente
das nossas colaborações anteriores (Ganso
Preto e Sangue). Confesso que no início
me senti um tanto intimidado, pois trabalhar com Marli
é sempre um desafio: sempre muito atenta, procura
criar um mundo no qual a música acaba ganhando
um corpo e voz, fazendo com que a mesma fale por si
o que precisa, sem ser determinado tipo de relação
no qual a artista dita o que quer e como quer.
Li os versos, e o que a Marli me pedia, apenas, era
que as coisas fossem ganhando espaço de uma
maneira sutil e suave. No entanto, ultimamente acostumei-me
aos acordes duros e dinâmicas pesadas de outros
trabalhos. Bailarina desde então começou
a dançar no meu piano de maneira mais complicada
e enigmática ainda. Eu tive que desvendar seu
mistério. A voz da Marli ecoava e ecoava entre
curvas sibilantes, distantes, e por fim, daí
surgiu a inspiração almejada. |
A
telefonei imediatamente e a pedi que viesse imediatamente
ao Recife para acompanhar de perto. Tocamos bastante
– Marli tem desenvolvido um apreço pelos sintetizadores
e nunca havia visto tocar daquela maneira. Eu, ela
e Witched tocamos sintetizadores. Registramos tudo.
Porém algo estava incompleto... Para acalmar
os ânimos, nós três fomos assistir
um ensaio da Orquestra Sinfônica do Recife,
sendo que de repente me veio à cabeça
a ideia de trabalhar com orquestra. Secretamente,
decidi trabalhar à surdina enquanto a Marli
e o Witched tocavam sintetizadores na minha casa.
Decidi chamar amigos meus da Orquestra Filarmônica
Transpessoal de Boa Viagem e executar algumas passagens
de sintetizador com a orquestra. Fiquei bastante excitado
e por fim convidei a Marli para presenciar uma execução
em ensaio do que se tornou o arranjo final para Bailarina.
Eis que de repente a mesma solta soteropolitanamente:
“Caralho, man! Mas por favor, retire as cordas! Quero
só as madeiras, metais e percussão!”
Desejo atendido e por fim pedi à Marli que
a mesma ditasse em regência aos músicos
a dinâmica necessária que ela gostaria.
Assim fiquei espantado com o vigor que a Marli conduzia
a orquestra e com a maturidade que ela adquiriu desde
Colostro, minha gravação predileta.
Terminada a sessão, gravamos imediatamente
com a
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orquestra
e a versão final foi concluída, e assim,
mais uma vez uma grande colaboração
com esta magnífica cantora deu-se fim. Espero
trabalhar mais vezes juntos e que no final foi tudo
muito, muito divertido, regado a piano, vinho e concertos.
Que venha Bailarina e Instalações
Noturnas!"
Rômulo
M. Filho |