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Depois
de vários anos sob os holofotes virtuais, Marli acumulou
bastante experiência, tanto pessoalmente quanto profissionalmente.
“Eu tive a minha voz e imagem expostas todo esse tempo, e eu sei
bem o que é ser um objeto de discussão”, diz Marli.
“Alguns me acham o máximo, outros riem de mim, outros
me acham ridícula e não vêem graça
nisso tudo. As pessoas me julgam de diferentes formas. Se eu sou
linda, feia, ou se eu sou negra, branca, ou falo errado. Observando
o comportamento das pessoas, eu comecei a pensar sobre o que é
isso que determina as relações entre elas. Por que
parece tão impossível enxergar de verdade além
das diferenças. Então, eu comecei a me fazer perguntas.”
E as respostas
aparecem em O Céu de Anastácia,
o quinto álbum de estúdio da artista. “Nesse álbum,
eu faço uma retrospectiva não só da minha
vida, mas da história do nosso país. Eu vejo as
pessoas ficando chocadas com escândalos políticos,
com a violência que aumenta cada vez mais, e penso: ‘por
que elas não apenas se olham no espelho?’ Nós
só estamos colhendo o que plantamos ao longo de 500 anos.”
Descrito como uma epopéia musical, o álbum narra
a jornada de Anastácia, o alter-ego de Marli, pelos quatro
cantos do Brasil. Mas antes de qualquer coisa, quem é
Anastácia? Marli responde: “Ela pode ser eu, mas também
pode ser a personificação do país.” Baseando-se
na história da escrava Anastácia, uma das mais
importantes figuras femininas da história negra no Brasil,
Marli incorpora um ser questionador em busca de sua própria
essência.
Para guiar
Anastácia através dos estados, Marli voltou ao
passado, utilizando estrelas como mapas. “Antes da invenção
da bússola, os navegadores se orientavam pela posição
dos corpos celestes. E como eu queria estar numa caravela, fez
muito sentido que fosse dessa maneira.” Mas as estrelas utilizadas
não são estrelas quaisquer. Marli trouxe da bandeira
do Brasil as estrelas que representam cada uma das 18 canções
que compõem o álbum, e seus respectivos estados.
E elas estão devidamente agrupadas em nove constelações:
Cruzeiro do Sul, Cão Maior, Cão Menor, Carina,
Oitante, Virgem, Escorpião, Hidra Fêmea e Triângulo
Austral. “Cada constelação é como se fosse
um capítulo, uma fase específica da história.
O Cruzeiro do Sul, por exemplo, tem muito a ver com o descobrimento,
e explora diferentes aspectos do período colonial, compreendendo
estados como Bahia e Espírito Santo. Já constelações
como a Virgem e a Oitante possuem apenas uma estrela, e suas
histórias são mais isoladas – mas não menos
importantes.”
Inteiramente
gravado em Feira de Santana, Bahia, O Céu de
Anastácia foi produzido novamente por Witched.
Dessa vez, Marli decidiu deixar de lado as experimentações
eletrônicas do seu último álbum, Colostro
(2005), para investir numa sonoridade crua, composta essencialmente
por instrumentos acústicos como piano e violão.
“Eu queria que o álbum fosse bem homogêneo e real,
e capturasse uma atmosfera seca, desértica. Então,
o Witched incorporou instrumentos que causassem esse efeito.
Acho que é o meu trabalho mais consistente, tanto na
sonoridade como no conceito.” Pianos elétricos, flautas
e uma orquestra complementam o disco, que por sua natureza melancólica
e profundamente pessoal, acredita Marli, não estava aberto
a concessões. “Nos álbuns anteriores, nós
experimentávamos muito, e ficávamos indo de lá
para cá, montando e desmontando as coisas como se brincássemos
de Lego. Mas com esse, eu fui muito rígida. Principalmente
porque o conceito veio primeiro. Então nós tivemos
que ter uma outra disciplina, moldando cuidadosamente cada peça.”
Marli faz
questão de salientar também os personagens que
cruzam o caminho de Anastácia ao longo do álbum.
“Eu utilizo bastante metáforas em minha música.
E personagens são uma forma incrível de passar
certas mensagens sem ter necessariamente que levantar uma bandeira.
Além da própria Anastácia, temos Daisy,
uma das minhas favoritas. Ela aparece logo na primeira faixa,
‘Daisy no Retrovisor’, e ela é meio que uma antítese
do que vem dali pra frente”. Em ‘Sargento União’, conhecemos
o personagem-título, um sargento homossexual que dá
carona a Anastácia e à menina do amendoim. “Esse
é outro personagem com quem eu me identifico bastante.
E eu fui inspirada pela história de um menino que não
queria servir o Exército, mas acabou passando na seleção.
E ele me contou o que passou lá dentro, e como as coisas
lá poderiam fazer sentido se funcionassem de outra forma,
digamos assim. Sim, ele é gay, e não acredita
em separação. É muito importante que tenhamos
essa idéia de unidade representada pelo Sargento.”
E
isso tudo é apenas uma breve pincelada do mundo alegórico
e cheio de camadas de O Céu de Anastácia.
Referências são encontradas por todo o álbum,
num intento de Marli em provocar reflexão e desafiar
os ouvintes a cada audição. Ela acredita que assim
como as estrelas que foram surgindo pouco a pouco no céu,
os significados ficarão cada vez mais claros com o tempo
- afinal de contas, é para isso que servem os livros
de História. Ou não.
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