Marli fala sobre as faixas de O Céu de Anastácia, revelando as histórias que existem por trás de cada uma. Conheça as constelações e todas as estrelas representadas pelas canções do álbum.



DAISY NO RETROVISOR (ε Cru = Intrometida / ES)

“Anastácia recebe uma carta de Daisy, uma amiga que está vivendo em algum lugar da Europa. Na carta, que chegou com vários meses de atraso, Daisy conta que a sua vida acabou se tornando tão diferente do que ela imaginava... Ela estava em apuros. Anastácia e Daisy se conheceram em Vitória há alguns anos. Na época, Daisy trabalhava como empregada doméstica em uma casa no Jardim Camburi, até que um dia apareceu esse homem, oferecendo um trabalho para ela. Ele disse que tinha uma oportunidade incrível de emprego, e que Daisy ia ficar famosa como modelo. Ela era tão bonita. Só que ela teria que largar tudo em Vitória, a família e os amigos, e ir para o estrangeiro. Ela era tão pobre que o dinheiro valeria a pena. Ela foi, e não voltou mais. Ela sabia que a partir daquele momento, sua estrela começava a se apagar.”

ALÉM DO ARCO-ÍRIS (γ Cru = Gacrux / BA)

“Anastácia se apaixona por um homem e os dois resolvem ir para Salvador. Essa é uma daquelas situações que mudam sua percepção do que é certo e errado. Hoje é de um jeito, mas amanhã é diferente, entende? Os dois estão apaixonados e enxergam um futuro promissor. Mas as coisas começam a desmoronar... Às vezes, você tem certeza do que quer, até que aparece algo ou alguém no seu caminho, que te faz mudar de idéia. E você acaba deixando de ser quem realmente é. Começa a usar máscaras, que podem ser um batom, ou uma outra cor de cabelo, e de certa forma, você acaba se vendendo a um ideal. E quando o ideal não tem mais valor, você se torna um parasita. Nessa história, Anastácia percebe que o ponto de chegada é também o ponto de partida, e que se você não prestar atenção ao que realmente importa, não sobra nada no fim.”

TIRADENTES (δ Cru = Pálida / MG)

“Nesse ponto, ela está vivendo um momento muito confuso. Então ela aceita o convite de um cara para ir pra Minas Gerais, porque lá abriram um negócio que estava dando muito lucro. Mas quando eles chegam lá, descobrem que está acontecendo uma guerra entre os locais e os imigrantes. O cara se alia a um dos lados e Anastácia se vê obrigada a lidar com aquela situação sozinha. Mas logo ela conhece Chica Esporão, uma garota que parece esconder algum segredo. Observando Chica no meio daquela guerra, o jeito dela agir, Anastácia aprende que às vezes máscaras são necessárias, e que você precisa fazer a coisa certa na hora certa. Muita gente morreu por causa de palavras ditas na hora errada. Mas Chica tinha como vantagem esse segredo, que permanece enterrado naquele lugar. Quando Anastácia vai embora daquele caos, com a ajuda de Chica, a guerra continua. Já faz algum tempo, e até hoje ninguém sabe o que aconteceu de fato lá.”

SANGUE (β Cru = Mimosa / RJ)

“Ela está desiludida aqui, mas ainda apaixonada. ‘Sangue’ acontece entre os prédios, os carros e as luzes da cidade grande. Quando ela vai pro Rio de Janeiro, ela conhece um homem que, no início, a faz se sentir segura. E acho que é aí que ela percebe que por trás de uma bela paisagem, sempre há o perigo. Como os espinhos numa rosa. Há várias formas de violência. Você pode provocar alguém e levar um tiro, ou levar um tiro que você não sabe nem de onde veio. Há a violência verbal, mas também há a violência silenciosa. Você pode destruir os sentimentos de alguém com pequenos gestos. É isso que este homem faz com ela. Talvez ele nem tenha consciência da conseqüência de seus atos. É uma história triste aqui, mas mesmo com uma ferida aberta, ela consegue se reerguer e seguir em frente.”


1901 (α CMa = Sirius / MT)

“Acho que ‘1901’ chega num momento decisivo. É a oportunidade de dar uma guinada, uma virada. O início do século XX... Quero dizer, 1901 representa um movimento separatista, se é que você me entende. Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tantas opções, que Anastácia sabe que precisa abrir mão de certas coisas. O comodismo é uma delas. Às vezes eu penso nas adolescentes que ficam grávidas, por exemplo, e me pergunto a quem cabe julgá-las por começarem a dar aos 11, 12 anos. Talvez elas não tenham escolhido esse caminho, ou talvez tenham. Talvez Anastácia não quisesse se aventurar com um desconhecido, mas ela não quer uma relação de conveniências. Ela sente que falta alguma coisa agora, com esse outro homem. E ela olha pro céu, o reflexo dele no Xingu, durante o amanhecer. Junto com o sol, nasce a constatação de que a estabilidade pode ser bem caótica. É hora tomar outro caminho, com certeza.”

CACHAÇA (δ CMa = Muliphem / RO)

“Quando você está de porre, certas coisas começam a fazer sentido. A cachaça desse homem te dá confiança. Não me entenda mal, não é uma apologia ao alcoolismo. Essa cachaça é diferente. Ela bebe pra ficar sóbria. Depois de um período de tantas incertezas, ela encontra alguém em que pode realmente confiar, justamente porque ele ensina que as coisas são passageiras, e que nós devemos aproveitar cada momento. Eu sinto que muitas vezes, as pessoas se deixam tomar pelo orgulho. Claro que você tem que auto-estima, mas é bom saber separar as coisas. Quero dizer, se alguém te decepciona, isso não anula todos os momentos bons que vocês viveram juntos. É uma parte sua, pessoal e intransferível. Esse é o legado de Cachaça.”


NOSSA SERINGA (α CMi = Prócion / AM)

“Temos algo bastante feminino e poderoso aqui. Eu vejo uma tribo de mulheres guerreiras lutando pelo seu espaço. Claro que Francisco de Orellana tem tudo a ver com isso. Quando a gente fala em proteger a sua casa, a sua cria, meu lado selvagem e materno já fica ligado. O de todas nós, aliás. Quando Anastácia vai pro Amazonas, ela percebe ainda o efeito de toda uma história de exploração e apropriação, o que nos leva de volta ao Cruzeiro do Sul. Dá pra fazer uma analogia com o ciclo da borracha, por exemplo, e a história num aspecto geral, mas estar lá, na bacia do Madeira-Guaporé, é essencial pra internalizar todo o sofrimento que exala daquela parte do território, digamos assim. A partir daí, o pessoal vira político e vice-versa.”


HOJE NÃO TEM MANIÇOBA (α Vir = Spica / PA)

“Esse é o outro lado da moeda. Se em ‘Nossa Seringa’ ela defende o direito dos nativos, nessa aqui o conceito de propriedade é posto em questão. Acho que quando você toma partido de algo, e assume uma posição, precisa assumir também as conseqüências. E às vezes elas vêm com toda uma artilharia, com tiros e bombas de gás lacrimogênio. Anastácia descobre um aspecto cruel que habita entre os altos e baixos escalões. Quando ela se une aos trabalhadores rurais nesse protesto pela desapropriação de terras, é mais pelo espírito revolucionário que pelo apoio à causa. Mas ela acredita que está fazendo o bem. Eu não acredito que ela seja uma mera testemunha da carnificina, de forma alguma, porque o que importa aqui não é o referente, e sim o código. O sangue foi derramado e não tem mais volta.”


ORAÇÃO À CABOCLA (α Car = Canopus / GO)

“Depois da carnificina, é hora de trazer a Iyalorixá pra história. Esse é o momento em que Anastácia sente que precisa ir rumo ao centro do poder. Ela presenciou um massacre no norte, e é hora de ela saber como as coisas realmente funcionam, por trás das cortinas. A cabocla representa a conexão com o passado, uma volta. Sempre que você passa por novas experiências e adquire mais conhecimento, passa a entender melhor o passado. É muito importante que você tenha essa noção para seguir adiante.”


PLANALTO CENTRAL (σ Oct / DF)

“Quando eu penso em Brasília, penso numa enorme vagina. Pelo menos o jeito que eu a vejo de cima, do ponto de vista do céu. É engraçado, porque não é uma vagina saudável, mas tem tudo a ver com o poder explorado em ‘Nossa Seringa’, de certa forma. Chegando em Brasília... acho que as coisas se tornam muito claras. A grande descoberta aqui não é exatamente o jeito que as coisas funcionam ali por trás, mas como há uma relação... doentia, digamos. Entre as pessoas, quero dizer. Digamos que eu tenha levantado uma bandeira, porque eu acredito realmente em um ideal. Mas esse ideal não é levado a sério, e vira objeto de escárnio entre as Barbies do sertão – você sabe quem elas são. Elas riem de mim, e isso as alimenta, sabe? Eu estou sendo ridícula para preencher certas necessidades. Sabe como é, a natureza humana. Talvez digam que é algum tipo de exploração, mas para mim, é a constatação de algo deplorável, que determina a relação entre as pessoas. O que elas não percebem é que também podem ser esse objeto de escárnio. É algo caleidoscópico, entende? Então, Anastácia encontra a raiz, a essência desse problema no Planalto Central.”


ALGODÃO DOCE (ε Sco = Wei / CE)

“O Escorpião é uma das constelações mais reveladoras, eu acho. Do ponto de vista emocional. Quando Anastácia sai de Brasília, ela não sabe pra onde as estrelas vão levá-la, então ela segue o seu coração. E a bússola mostra que ela está indo para o Nordeste. Juazeiro do Norte traz uma calma. Chegando lá, tem um grupo de pessoas indo de barco para algum lugar ao sul, e Anastácia vai com elas. E ela percebe uma intimidade entre essas pessoas, que a comove. Vem uma sensação de estar em casa, em família. Apesar dessas pessoas terem um objetivo, tem algo muito maior nesse laço que as envolve, capaz de fazê-las ultrapassar os tempos mais difíceis.”

ESSE ÔNIBUS NÃO VAI PRA SÃO PAULO (ι Sco / SE)

“Uma das pessoas de ‘Algodão Doce’, uma mulher e seu bebê, chega a Aracaju com Anastácia. Essa mulher está indo para São Paulo, porque o marido dela está trabalhando lá, e está esperando por ela. Vai ser uma longa viagem. Quando ela entra no ônibus, Anastácia sente que talvez nunca mais volte a vê-la. E isso, claro, poderia acontecer por várias razões. As pessoas entram e saem da nossa vida, e independente do que elas estão fazendo ou do que elas se tornaram, continuam sempre as mesmas na nossa memória. Dessa vez, essa constatação acontece de forma dolorosa, quando Anastácia lê no jornal que um ônibus vindo se Sergipe para São Paulo foi seqüestrado. A quadrilha bloqueou a estrada, roubou os passageiros e por último ateou fogo no ônibus. Alguns sobreviveram. Uma mulher não conseguiu retirar o seu bebê, e preferiu ficar com ele dentro do ônibus, quando poderia ter escapado sozinha. É quando Anastácia consegue sentir a força daquele laço, e é capaz de sentir o fogo em sua própria pele, derretendo. E ela leva isso dentro dela. É algo que nunca mais será esquecido.”

SARGENTO UNIÃO (μ Sco / PE)

“Há uma tranqüilidade estranha no ar. Aquela sensação de vazio depois da morte de alguém. Eu acho que é muito importante a gente ter um sargento chamado União no Céu de Anastácia. Quando se fala em sargento, logo vem à cabeça aquela idéia de patriotismo, de defender a nação, e claro, de guerra. Mas esse sargento não quer guerra. Ele quer união, não separação. Então, quando Anastácia se depara com uma cultura machista bem enraizada, Sargento União surge como um sopro de vida e liberdade, demonstrando todo o seu amor pelos seus homens. E nós viajamos, junto com uma menina que vende amendoim no semáforo, em busca de um lugar – não necessariamente físico – onde as pessoas possam se sentir confortáveis com o que elas realmente são. Talvez ela finalmente tenha encontrado o pote de ouro no fim do arco-íris.”


O CÉU DE ANASTÁCIA (γ Hya / AC)

“Este é o clímax. Eu acho que em toda essa trajetória, ela estava se preparando para enfrentar os seus medos, mesmo que inconscientemente. Antes de encarar os seus demônios, você vai se livrando de diversos obstáculos ao longo do caminho – e isso é uma pegadinha, porque quanto mais você sente que está longe dos problemas, mais se aproxima do maior deles. Ela já lutou ao lado dos nativos indígenas no Amazonas e presenciou o derramamento de sangue dos sem-terra no Pará. Chegando no Acre, ela passa por lugares que ainda remetem à época da colonização espanhola, e depois encontra essa gente boliviana. Estando lá, você consegue ouvir, se prestar atenção, um vento que sopra. Um vento que atravessa o Atlântico, que traz consigo uma voz familiar. E você pensa: ‘será que eu sou uma boa pessoa? Será que eu estou sendo egoísta querendo a minha justiça?’ Agora, Anastácia é capaz de enxergar as coisas de pontos de vista diferentes, e sabe como é estar no lugar do explorador e do explorado. Ter lidado com a morte em circunstâncias tão cruéis provoca... eu não sei, um sentimento de vingança, talvez. Mas quando você se vê sozinho em determinada situação, começa a questionar qual o seu lugar. O que os outros esperam de você. Estar na fronteira, nesse pedaço de terra que foi tão disputado é essencial, enquanto navegamos pelo Juruá. É quando você olha para a lua e as estrelas e percebe que elas iluminam você e o seu vizinho da mesma maneira.”

CUSCUZ (α Hya = Alphard / MS)

“Anastácia vai para o Sul e conhece Cuscuz, uma garota com câncer. Ela está em estado terminal. Ela sabe que lhe resta pouco tempo, mas se sente motivada a aproveitar cada minuto. É muito raro você conhecer alguém como Cuscuz. Eu gosto dessa coisa mágica do Mato Grosso do Sul. Tem algo mágico no ar. Quando Anastácia vai pra lá, ela vai em busca de conhecimento na Serra do Roncador. E ela ouve todas as histórias dos nativos, as lendas sobre uma cidade perdida. Disseram que aqueles que conseguiram encontrá-la, nunca mais voltaram. Depois de tantas experiências, boas e ruins, Anastácia encontra um sentido para a sua fé. Depois que Cuscuz vai para o outro lado, ela assiste ao pôr-do-sol no Pantanal, e lá no fundo, sente que existe algo ou alguém em que pode confiar, independente de estar na mesma dimensão que ela.


CARROSSEL (γ TrA / PR)

“O Sul dá uma sensação de alívio. O Triângulo Austral é o posfácio da nossa história, de certa forma. Ir ao Paraná e perceber uma certa... estabilidade, talvez... Bom, é um lugar que me provoca reflexão. Agora Anastácia sabe que coisas boas podem acabar de um jeito não tão triste. Porque a vida é assim, afinal de contas. Essa música é sobre aquelas pessoas que você acaba de conhecer, e tem a sensação de que as conhece há séculos. Essa é uma pessoa muito especial pra mim. Mas não vou te dizer quem ela é. Bom, ela era uma estrela, e tinha uma força incrível. Mas ela se foi. Dessa vez, não por culpa de alguém. Ela morreu num acidente de carro. E as pessoas ficaram dizendo ‘Nossa, ela era tão bonita... Que injustiça.’ Ela era linda, tinha uma família e muitos amigos. Mas outra garota morreu, no outro carro envolvido no acidente. Ela não era bonita, era pobre e sozinha. Ninguém chorou por ela. Mas ela também é uma estrela. ‘Carrossel’ é para as duas.”

MAFALDA COBRINHA VERDE (β TrA / SC)

“Anastácia conhece Mafalda Corbrinha Verde num navio. Um navio sobre rodas. A feminilidade é o tema central aqui. Como uma mulher, eu me sinto gostosa. Não só fisicamente, mas gostosa por dentro. Mafalda é uma mulher muito forte e gostosa. E quando a brisa vem, no fim da tarde, eu olho para o mar, e consigo sentir o espírito de todas as mulheres que percorreram meu caminho, há muito tempo atrás. Anastácia agora está em Santa Catarina, no navio, discutindo com Mafalda sobre a origem da vida. E como nós, como mulheres, podemos determinar a História para sempre. Tomé e Manoel, por exemplo, não seriam nada sem suas mulheres. E eu gostei da idéia de uma convenção de mulheres guardiãs. Eu não sei exatamente o que elas guardam, mas faz sentido acontecer nesse lugar. Claro que os homens são bem-vindos, mas terão que agüentar o vento trazendo Madalenas em seus milhões. É uma história de poder e sensualidade.”

FLORES DE IPIRÁ (α TrA = Atria / RS)

“’Flores de Ipirá’ é sobre navegar de volta para casa. Agora ela está num lugar distante, bem longe, mas apesar disso, se sente em casa. Muita coisa aconteceu, entre vitórias e derrotas. Tem uma melancolia nessa música que me conforta - a melancolia depois de uma longa viagem. Depois de tanto tempo, é hora de se dar conta que o passado não desapareceu, ou simplesmente passou. Tudo que foi vivido continua muito presente. Claro que as coisas mudaram, e estão a vários quilômetros de distância agora, mas você continua carregando tudo aquilo com você. Não importa aonde você vá. Engraçado que essas flores que você carrega... Elas sempre estiveram ao seu redor, mas você não percebe até elas desaparecerem de lá. De Ipirá ou do lugar em que você nasceu. E quando você encontra aquela pessoa, trazendo aquela flor pra você... É mágico. E não precisa tirar da cartola.”



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