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CONFUSA & CONFUNDIDA entrevista Marli
Por Joseph Kunt (Outubro 2007)

O novo álbum de Marli, "O Céu de Anastácia", foi lançado no último dia 2 e já um sucesso estrondoso. Marli nos recebeu em sua casa para uma reveladora e exclusiva entrevista.


Você declarou que ‘O Céu de Anastácia’ é uma volta ao passado. Você pode explicar isto?

Sim. Fazer este álbum foi como olhar um álbum de família. Eu pude olhar fotos minhas, de quando eu era criança, e enxergar meus filhos. E me enxergar neles depois. Acho que viver numa época como esta faz você questionar, refletir, buscar por respostas. Mas quando as pessoas fazem isso, querem que as coisas se resolvam num piscar de olhos. Eu pensava assim antigamente. Mas ao me tornar uma mãe, passei a compreender melhor certas coisas. Qual o meu lugar e o que eu represento. E olhando para trás, eu percebi que estamos colhendo o que plantamos durante séculos. O que somos hoje é o reflexo de toda uma história, que possui raízes profundas. Então, se eu quero um futuro diferente, eu preciso conhecer o passado, e plantar uma nova semente.

E como o conceito evoluiu?
À medida que eu voltava mais e mais ao passado, eu percebi que o pessoal era social, e era político também. E eu resolvi voltar ao início da nossa história. Quando você fala em descobrimento, logo vem à cabeça as grandes navegações, as caravelas, etc. E isso me levou de volta a como os navegadores se orientavam antes da invenção da bússola. Eles se guiavam pela posição do Sol, da Lua e das estrelas. E se guiar pelas estrelas é uma coisa bastante corajosa de se fazer, eu acho. Quando você olha pro céu, à noite, elas vão surgindo aos poucos, você não vê tudo assim, de cara. Algumas pessoas não tem paciência para fazer isso, mas deveriam ter. E uma coisa puxou a outra. Logo tive a idéia de trazer o céu da bandeira do Brasil, cujas estrelas representam os estados – e cada estado é uma música no álbum. E por último, a minha personagem, Anastácia, que foi baseada na história da escrava. Eu fiquei muito fascinada pela história dela, e acho que é uma metáfora perfeita pro estado atual do nosso país. Na verdade, pra toda a história dele. Sem falar que eu gosto da idéia dela se chamar Anastácia, o que é bem curioso por se tratar de uma escrava. Anastácia é um nome russo, e a primeira imigração de russos para o Brasil só ocorreu bem mais tarde, já no século XX. Então tem tudo a ver com a idéia de importação e exportação, que eu exploro bastante no início do álbum. É uma metáfora dentro de outra. E Anastácia, o nome, também significa alguém que está sempre em busca de sabedoria.

Algumas músicas, como ‘Planalto Central’, têm um teor político bem carregado. Os últimos escândalos que temos acompanhado foram uma grande influência?
Sim, mas você tem que ter uma visão histórica desses acontecimentos. Eu observei a reação das pessoas com a absolvição de Renan Calheiros, por exemplo, e elas ficaram absolutamente chocadas. Claro que é algo triste, mas não era tão inesperado ou absurdo, concorda? Eu sinto que as pessoas se iludem bastante. É muito difícil se olhar no espelho. Então, claro que todos esses escândalos dos últimos anos foram uma influência, mas procurei não me ater a algum específico, porque todos são fruto de uma história inteira de corrupção, entende? Esse é um aspecto da coisa toda. Se você prestar atenção, vai perceber que há algumas referências no álbum a certos acontecimentos, mas que se expandem num contexto mais amplo. Como “Hoje Não Tem Maniçoba”, por exemplo. Eu não estou falando somente sobre tal massacre, em tal lugar. Tem muito mais acontecendo ali. Tem um sentido alegórico nesse álbum, que vai dos acontecimentos históricos aos personagens, passando pelo lugar em que a música se passa.

Em ‘1901’, há uma referência nada gentil a Glauber Rocha. O que você acha dele?
(Risos) Eu vou te dizer o que eu acho de Glauber Rocha. Eu acho que ele foi um cineasta muito corajoso, mas fez um grande mal ao cinema nacional. Por causa dele, muita gente achou que podia pegar uma câmera e fazer um filme de qualquer jeito. Essa idéia de que uma câmera na mão e uma idéia na cabeça são suficientes não funciona, se você não souber no que se meteu. Temos todo um histórico de porcarias cinematográficas que estão aí para provar o que eu tô dizendo. Mas voltando à música, há algo no culto a Glauber que eu acho prejudicial, se é que você me entende. Ele é visto como um deus por milhares de seguidores. E, bem... (pausa) Uma vez um grupo de estudantes aspirantes a cineastas, fãs de Glauber, procuraram Antônio para pedir para usarem uma música minha no filme que eles estavam fazendo. Eu nem vou te dizer sobre o que era o filme (risos), mas eu não liberei o uso da música. Sabe como é, o conceito de regionalismo universalista às vezes não cola. Você pode se meter em encrenca.

Agora eu fiquei curioso. Falando em cinema, ‘O Céu de Suely’ vem à cabeça quando falamos no álbum. Você assistiu? O título é uma referência?
Esse filme é fantástico. E eu fico feliz que você lembre desse filme, pois eu assisti ano passado, e de certa forma, foi uma grande influência. Eu me identifiquei muito com o filme. Acho que o álbum tem uma atmosfera semelhante à do filme, em certos aspectos. Eu sou fã do Karim Aïnouz. Não acho que o título foi uma referência, pelo menos não conscientemente. Eu realmente não percebi isso até completar o álbum. Mas há várias outras influências nesse álbum, principalmente literárias. Eu li o livro de Pedro Calmon, “História do Brasil na Poesia do Povo”, e fiquei fascinada.

Suas letras estão bem mais elaboradas nesse álbum, também.
Eu tenho assistido muito “Xuxa Só Para Baixinhos”, com meus filhos.

Ano passado você gravou o seu primeiro clipe, ‘Bertulina’, que virou um fenômeno na Internet. Você foi exposta de uma maneira inédita até então. Agora, você acabou de lançar o quinto vídeo, ‘Além do Arco-Íris’. Você encara o público diferente agora, por conta disso?
Essa é uma ótima pergunta. Quando era só minha voz, e uma ou duas fotos, era uma coisa. As pessoas não sabiam exatamente do que se tratava, duvidavam até da minha existência, o que é bem engraçado. Mas depois do clipe, tudo mudou. Eu não esperava que fosse ter tanta repercussão, sinceramente. E as pessoas me viram, e eu vi as pessoas. É engraçado ver a percepção que as pessoas têm de você. Como elas te julgam, através de determinados detalhes, e tiram suas próprias conclusões. Claro que eu tenho minha posição sobre isso agora, que foi, aliás, um elemento-chave para fazer esse novo álbum. Eu sei que você está tentando chegar a algum lugar, que você quer falar sobre as teorias do pessoal. Que eu estou sendo humilhada, explorada, ou algo do tipo. Mas esse é um aspecto mágico do meu trabalho, entende? É uma verdade guardada dentro da minha perereca. E eu sou muito generosa, pois deixo as pessoas sonharem. É isso que todos temos que fazer, abrir espaço para sonhar.



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