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Sobre uma cantora popular de cozinha
Por Pedro Ivo Vieira (originalmente disponível em http://www.pre-fabricando.com/cultura/cl160607.htm - junho de 2007)

Marli não canta bem e faz músicas. Tolo é aquele que num breve momento de distração ou cansaço mental, tenta preencher a cabeça com porcarias do YouTube e assiste aos clipes musicais dessa incrível cantora, interpretando sua obra como uma piada, digna somente de algumas fúteis risadas. Seu nome simples é também revolucionário pelo fato de não ser meramente artístico. M-a-r-l-i: Tão pequeno quanto seus primeiros quinze minutos de fama e tão apaixonante que caberia na letra de qualquer criança pré-alfabetizada. Uma artista não reconhecida, uma voz àqueles que como ela, usam a arte como uma forma de expressão popular da alegria e dos medos humanos; um exemplo de que a arte não é meramente séria e bela. Marli é uma cantora original demais para se encaixar nos padrões modernos de uma beleza mórbida; brilhante o bastante para não sujeitar a veiculação de suas obras a uma mera produtora musical; sensível o bastante para mudar os padrões do trash.

Nascida no dia 12 de outubro de 1983, na pequena cidade de Ipirá (BA), a cantora viveu uma infância tranqüila e humilde. Aos 14 anos deixou o colégio e aos 17 mudou-se para Feira de Santana para tentar melhorar a vida. No mesmo ano, arranjou um emprego de doméstica em uma simples casa da cidade. Foi aí que Marli conheceu Antônio, filho dos donos da casa que teve a incrível idéia de publicar as estranhas músicas que sua inusitada hóspede cantava com tanta expressão e estilo. E assim, ela finalmente pôde publicar seus dons artísticos que a tantos anos viviam reprimidos e latentes, encontrando na internet, a solução para seus problemas de divulgação.

Em 2002, Marli, produziu os primeiros singles de grande sucesso “Sagrada” e “Ladra de Namorados”, que conquistou a aceitação do público trash e consagrou Marli em sua carreira. Hoje, a jovem baiana conta com a publicação de quatro álbuns "Rainha das Trevas", "Virgem Brasileira", "Eu Gosto de Louvar" e "Colostro", uma trilha sonora de uma minissérie escrita de seis capítulos denominada "Uma Garota do Cacete" e a coletânea "A Árvore Ginecológica", sem contar vários outros singles posteriormente publicados. Em fevereiro de 2006, Marli concordou em finalmente gravar seus primeiros videoclipes: "Bertulina", "Linha Direta", “O amor está no ar”, dentre outros.

Apesar do sucesso ao estilo trash, Marli interpreta suas músicas como uma “forma de se divertir”. Assim como uma boa parte de todo bom conteúdo do seu estilo artístico trash, a nossa musa negra não tem fins lucrativos com as suas obras. “Os CDs da Marli não existem de fato. O que fazemos é totalmente voltado para a Internet. Os arquivos mp3 das músicas podem ser todos baixados aqui no site (http://www.marli.cjb.net), e não lucramos absolutamente nada com isso. Se você encontrar algum cd da Marli à venda (o que é difícil) não compre, pois é falso”, explica Antônio, “produtor” da Marli que utiliza o pseudônimo de Witched nas obras divulgadas. Essas e outras informações exclusivas sobre a Marli podem ser conferidas no endereço http://www.geocities.com/marlifanclub/faq.html.

Apesar da sua origem humilde e das suas obras voltadas para uma “realização pessoal”, Marli é hoje uma representação crítica às grandes famosas como Madonna e Björk, numa versão exagerada e, porque não, “avacalhada” dessas cantoras. Apesar, dos constantes termos chulos e muitas vezes despudorados da cantora, o seu sucesso, segundo Antônio, não se limita somente a essa vertente do trash, que tenta conquistar o público pela baixaria. “Gostamos de explorar temas polêmicos como sexo e religião em boa parte das músicas, sempre com uma boa dose de humor negro. Mas como uma boa artista versátil e conceitual, Marli está sempre mudando o estilo e os temas, o que se reflete tanto nas letras quanto na produção e sonoridade das músicas. Uma das principais idéias é não deixar que essa artista, embora caseira, seja vista como uma figurinha fácil do trash. A intenção é fazer um "trash de conteúdo", fazendo músicas e letras de todos os estilos, e usando referências a vários elementos.”, ressalta Antônio.

Ao se intitular como a criadora do novíssimo estilo musical “Música popular de Cozinha”, a cantora mistura ritmos nem um pouco harmônicos combinados com uma entonação de voz inapropriada à música, o que resulta em um resultado não agradável aos ouvidos, mas muito atraente à proposta da cantora. Sua vida longe das câmeras não é muito glamurosa.

É preciso deixar claro que Marli é uma pessoa não teve muito acesso à educação e informação, mas que apesar disso, gerencia a divulgação de suas obras e responde a todos os pedidos de seus fãns com muito carinho. “A Marli tem consciência de tudo o que se passa. Ela tem consciência inclusive da sua própria ignorância em relação a certos detalhes, tais como coisas que ela canta e não compreende. Ela não sabe como funciona a Internet, por exemplo, mas sabe que é o meio através do qual as pessoas tem acesso às músicas e aos clipes. (...) e sabe que as pessoas vêem, ouvem, dão opiniões, fazem elogios e críticas. Eu leio os e-mails para ela e passo todas as informações a respeito do que está se passando. Foi ela, inclusive, que teve a idéia de gravar a primeira mensagem aos fãs”.

Como diria Oswaldo Montenegro em sua música “metade”; “que a arte nos aponte uma resposta; mesmo que ela não saiba; e que ninguém a tente complicar; porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer (...)”, Marli mais uma vez passa a sua mensagem de faça música você mesmo. Vivemos tempos difíceis para o velho eruditismo de qualidade, que a muito se distanciou do que poderíamos chamar de música popular, abrindo brechas para novos manifestações artísticas das pessoas, que garantem não precisar de grandes ensinamentos para se expressar e criar. Vivemos uma revolta silenciosa, uma tentativa livre de expressão musical de tudo que se passa e que aos poucos constrói novas identidades desses sujeitos criadores que não mais estão alheios a todo universo sociocultural que tanto as reprimiu e negou oportunidades. A obra da Marli não é só trash, é uma sutil pancada nas inúmeras amarras musicais. Se você quiser conhecer um pouco mais sobre artistas trash brasileiros acesse www.quadrodecontas.cjb.net.



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