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DE
VOLTA COM MUITO LEITE PRA DAR
Marli retorna à cena madura e experimental
com seu novo trabalho
Por John Tramontina
“Puta que pariu, que olhos são esses?”
Essa foi a primeira coisa que Marli disse ao me receber
na sua casa em Feira de Santana. Ela nem parece a mesma
pessoa que estampou a nossa capa na edição
de dois anos atrás. Sim, ela continua brincalhona,
fala palavrões e não perde a oportunidade
de intimidar alguém. Mas agora ela faz tudo isso
de maneira consciente, e nunca deixando de ser divertida.
“Se eu tivesse esses olhos azuis, estaria ferrada
hoje”, brinca Marli, cujos olhos negros escondem mistérios
que jamais serão compreendidos. Comportada em seu
vestido florido e discreto, ela me convidou a sentar no
sofá, enquanto fazia as unhas com sua manicure particular.
Do outro lado da sala, o marido André se via atordoado
tentando dar de mamar ao filho mais novo do casal, Sérvio,
que não parava de chorar. “Pô, Marli,
ele não quer a mamadeira”, disse ele já
aborrecido. Marli descomplicou: “Então tire
esta porra da boca do meu filho!”
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Talvez
tenha sido preciso engravidar uma segunda vez, mas o lado
maternal e reflexivo de Marli aflorou de vez. “Ser mãe
me abriu os olhos para mim mesma. Eu não me conhecia
antes. A partir do momento que eu comecei a olhar para dentro
minha vida mudou.” Os resultados dessa mudança
estão expressos no novo álbum de Marli, intitulado
“Colostro”, que foi lançado dia 6 de novembro.
“O álbum tem esse nome porque é como se
as músicas fossem os ingredientes desse material essencial.
E nele eu atravesso uma jornada de novas experiências
que vão ser fundamentais pro meu renascimento. Então
eu provo deste leite amarelado, grosso e nojento, que vai
me dar forças para seguir adiante”. Para o primeiro
single, Marli escolheu a canção “Galáctica”,
que representa muito bem seu atual estado de espírito:
leve, maravilhado e feliz. “Mas não se engane,
o caminho não foi fácil. ‘Galáctica’
chega na segunda metade do disco, então há muitas
músicas sombrias e difíceis que vêm antes”,
alerta.
Em certo momento de “Linha Direta”, uma das novas
canções, Marli canta: “Sou de borracha”.
E aprender a ser flexível foi uma das dificuldades
pelas quais ela passou. “Eu era muito dura com os outros
e comigo mesma. Mas sendo mãe, eu aprendi a ser vulnerável,
a estar sempre aberta pra qualquer coisa, e isso é
muito importante”. |
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E
é assim, aberta e arreganhada, que ela aparece nas
incríveis fotos que acompanham esta matéria.
“Ninguém sabe disso, mas eu comecei a fazer ioga
há algum tempo. Estava me sentindo uma velha de juntas
duras com vinte e poucos anos (risos). Agora eu faço
coisas incríveis com o meu corpo, não conseguia
colocar o pé atrás da cabeça desde os
4 anos. E faço acrobacias bem legais, principalmente
na cama. Pergunta ao André (gargalhadas).” A
manicure arranca um bife da unha de Marli, que solta um “Ai,
cabrunco!” carregado, enquanto André sai de fininho
pelo corredor. Apesar
de hoje em dia levar uma vida saudável, Marli passou
por uma experiência nada divertida há alguns
meses, após cair de boca numa carne de porco mal-passada
e adquirir uma tênia. “Ter aquele bicho dentro
de mim foi a coisa mais horrível que me aconteceu.
As dores são insuportáveis, eu achei que fosse
morrer. Imagina aquilo no meu sangue, chegando ao meu cérebro!”,
conta apavorada, como se ainda estivesse hospedando a tênia.
Mas logo cai na gargalhada: “Se bem que ela é
até bonitinha (risos). Mas de todos os bichos que
eu tive dentro de mim, esse foi o pior”, debocha ela,
fazendo referência à sua suposta ex-vida de
aventuras amorosas. “Nem tudo que dizem por aí
é verdade. Eu sempre gostei de sexo, mas nunca fui
uma puta tarada. Mas tive muitos homens legais. Só
que esse tempo de pular de galho em galho passou, na juventude
tudo é festa. Eu só aproveitei bem. Gostava
de me exibir de ser polêmica.” Ela diz como
se não gostasse mais. A retificação
vem em seguida: “Na verdade, quero ser polêmica
de outras formas agora.”
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| O
fato de ser uma artista controversa era divertido para Marli,
mas acabou trazendo conseqüências ruins para sua
própria imagem, quando um típico maníaco
internauta resolveu adotar a personalidade dela no Orkut para
divulgar pornografia e satanismo na Internet. Se sexo e religião
eram temas que Marli abordava de forma divertida e bem-humorada,
esses mesmos temas tornaram-se exagerados, medonhos e sem
graça nas mãos do “fã em crise”.
Marli chegou a gravar uma mensagem para os fãs em seu
site oficial, que conseguiu recuperar seu público,
desta vez mais fiel do que nunca. “Sabe, eu não
fiquei aborrecida. Só triste. Infelizmente algumas
pessoas não conseguem captar minhas mensagens da forma
correta, acabo mal-interpretada. Mas essas coisas servem como
lição. Eu só quero aprender e seguir
em frente.” Em
“Colostro”, seu quarto álbum de estúdio,
Marli expõe sua alma de forma nunca vista antes,
narrando uma jornada épica através de letras
complexas e sonoridade experimental. Aqui, o humor escrachado
e acessível de álbuns como “Virgem Brasileira”
e “Eu Gosto de Louvar” dá lugar a um
emaranhado de idéias e versos que dariam inveja a
muitos escritores. Mais ativa do que nunca na produção,
ela se aliou ao seu velho companheiro Witched para criar
o álbum, chamando também a dupla White Nóize,
revelação underground, para colaborar numa
das faixas. “Eu quis experimentar de tudo neste álbum.
Por isso resolvi trazer elementos novos para minha música,
como cantos gregorianos, harpas, caixinhas de música,
sinos, ruídos estranhos. Causa estranheza sim, principalmente
pro meu público, que está acostumado com coisas
mais pop. Mas é como a vida, chega um momento em
que você tem que atravessar uma fase difícil,
tomar decisões importantes, chegar ao fundo do poço.
E o ‘Colostro’ traduz essa fase que eu passei”,
explica Marli, que não parece preocupada com o sucesso
comercial do disco. “Não estou nem aí
se acharem o disco ruim ou não fizer sucesso. Este
é o meu álbum mais honesto, estou muito orgulhosa
dele e isso é o que importa.”
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O
resultado é de se orgulhar mesmo. O medo de Marli é
ser estereotipada como figurinha fácil do trash. “Não
gosto de ser comparada à Gizele, por exemplo. Meu trabalho
é completamente diferente do dela. Eu sou muito versátil,
gosto de explorar várias coisas. Mas tem gente que
me resume a ‘Ladra de Namorados’ ou ‘Pirulito’.
Não tenho vergonha dessas músicas, até
porque foram grandes sucessos da minha carreira, mas eu tenho
muito mais a oferecer”. Se por um lado ela não
está preocupada com o sucesso de seu álbum,
por outro está inconformada com os rótulos fáceis.
É aí que se revelam os traços de ambição,
que de fato sempre estiveram presentes em Marli. A fascinação
por ela está na presença de substância
por trás da imagem superficial do ícone pop-trash.
Incansável
e curiosa, Marli revelou sua vontade em explorar uma nova
área: a literatura. Ela tem planos de lançar
um livro infantil em breve, sobre preconceito racial na
infância. “Eu acho que esse tema nunca é
tratado de forma adequada para as crianças. Nós
ainda vivemos numa sociedade racista, temos uma cultura
racista. Meu filho mesmo já foi discriminado na escola
por ser negro. Os protagonistas de novelas são brancos,
os super-heróis são brancos e as princesas
são loiras, brancas, magras e peitudas. Como uma
menina de 5 anos vai reagir a um conto de fadas com a princesa
negra?”, provoca Marli. E é exatamente essa
pergunta que o livro dela pretende responder, contando uma
fábula que tem como protagonista uma princesa negra.
“Vai se chamar ‘Preta de Carvão’.
Estou muito empolgada com o projeto. A Barbie está
fodida comigo”.
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Ainda
sobre projetos futuros, Marli disse estar cheia de idéias
para o próximo álbum. “Depois de escrever o
‘Colostro’ eu me senti muito lubrificada, e agora acho
que posso escrever um álbum em 10 minutos (gargalhadas).”
A empolgação é logo interrompida pela manicure,
que arranca outro bife da unha de Marli. “Janete, você
quer me deixar sem mão?”, esbraveja, deixando Janete
constrangida. Logo Marli se redime. “Eu sei que minhas mãos
são um pouco mais bonitas que as suas, mas arrancar não
pode, né?”. Janete ri e pede desculpas, continuando
o serviço. “Tem dias que eu estou insuportável.
Só me falta subir pelas paredes. Aí me mandam tomar
Lexotan, mas odeio aquilo. Não me dou bem com ansiolíticos
e antidepressivos. A única vez que tomei Lexotan, fiquei
lesada e me senti mal, além de ter ficado inchada que nem
uma sapa. A rosinha nunca mais entra na minha boca.” Das drogas
Marli nunca foi muito amiga. “Claro que já experimentei,
mas me senti muito mal. Odeio drogas, qualquer tipo de droga. Parei
de fumar há 3 anos. Nem cerveja eu tomo. Só um vinhozinho
de vez em quando.” Para
Marli, ter sido a pioneira na indústria caseiro-fonográfica-voltada-exclusivamente-para-a-Internet
é gratificante. “Fico feliz por ter influenciado
outros talentos escondidos a se revelarem.” Em 2003, Marli
foi a primeira artista a integrar o Quadrodecontas, parada semanal
dos álbuns e singles de artistas caseiros, alguns no esquema
de criar personagens e outros realmente se levando a sério.
Boa parte dos que passaram pela parada foram sucessos passageiros.
Outros talentos continuam surgindo, como Ariannah, de quem Marli
é fã. “Ela é uma cantora promissora.
E não é minha rival, como muitos pensam. Espero
um dia ter o prazer de cantar com ela.” A admiração
é recíproca, mas antes que pipoquem os comentários
maldosos, Marli adianta: “Eu não estou a fim de comê-la”.
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