Marli se
formou como revelação do "trash inteligente"
brasileiro a partir da amizade com o estudante Antonio Augusto
Farias, filho de seu então patrão, que se empolgou
ao encontrar um caderno com versos escritos pela sua antiga
funcionária em 2002. Com esse encontro, Marli se familiarizou
com gente como Madonna, Björk e Tori Amos. Foi a partir
dessas fontes que nasceram sucessos como "Bertulina",
"Linha Direta" e "O Amor Está no Ar",
misturas inusitadas entre humor negro, surrealismo e obscuridade.
Todos bem difíceis de encaixar em qualquer gênero
musical.
“Acho que
nenhum rótulo cabe bem”, contou Antonio sobre os sons
de Marli, em entrevista ao Virgula. “A tendência das pessoas
a encaixar as coisas em um gênero ou estilo é irritante.
O divertido é que a gente sempre tenta trazer algo diferente,
um novo conceito, uma nova sonoridade, e novas idéias
pra cada trabalho. E é gratificante poder observar as
reações diferentes dos fãs. Alguns gostam
das músicas mais escrachadas e explícitas, com
um teor mais cômico, outros gostam das músicas
mais sombrias, outros preferem as canções mais
calmas e sérias, e por aí vai”, defendeu. E quanto
à família de Marli, o que acha do bafafá
todo em torno da “carreira” da moça? Segundo Antonio,
em geral, a receptividade de todos tem sido boa. “Todos na família
conhecem o projeto. A maioria acha divertido, mas ninguém
leva muito a sério. O marido dela é o único
com algumas reservas”, conta.
Polêmicos
Moradores
de Feira de Santana, também na Bahia, Marli e Antonio
produziram juntos cinco álbuns, todos lançados
apenas virtualmente: Rainha das Trevas (2002), Virgem
Brasileira (2003), Eu Gosto de Louvar (2003),
Colostro (2005) e O Céu de Anastácia
(2007), todos lançados pela gravadora fictícia
Furacu Records. Desses, surgiram cinco clipes: "Bertulina",
"Linha Direta", "O Amor Está no Ar",
"Galáctica" e "Além do Arco-Íris".
As canções passeiam por motes polêmicos,
como religião e sexo. Todas podem ser baixadas gratuitamente
na internet aqui.
Autodidata,
Antonio produziu todas as canções de Marli, além
de ter dirigido os clipes. “Aprendi tudo sozinho, aos poucos,
movido mais pela curiosidade”, revela. “Sempre tive contato
com gente que trabalha com produção de música
e vídeo, e isso ajudou bastante. Nunca fiz cursos e,
na verdade, não tenho tanto conhecimento técnico
de produção. Muito do que eu faço é
intuitivo, quase lúdico mesmo. Mas estou sempre procurando
novos recursos para aperfeiçoar a produção
das músicas e dos vídeos, assim como novas idéias
para o site e para a divulgação”.
Shows?
Mesmo com
a popularidade crescente, shows até agora não
haviam sido considerados por Marli e Antonio. Porém,
a possibilidade de realizar espetáculos passa a ser observada
com mais carinho pela dupla. “Tenho pensado nisso, mas como
faço tudo sozinho, surgem várias questões
técnicas e financeiras que complicam o planejamento de
um show por enquanto”, conta Antonio. “Mas é uma possibilidade.
Quem sabe mais adiante?”, considera.
Antonio
se mostra cuidadoso em relação a quaisquer intenções
de exposição pejorativa de Marli. “Já recusei
propostas de matérias para a TV porque percebi que a
intenção não era das melhores”, conta.
E rumar da Furacu Records para uma gravadora de fato, passa
pela cabeça da dupla dinâmica? “Depende da proposta”,
conta Antonio. “O mais importante para nós é a
liberdade que temos na Internet, a possibilidade de fazer e
publicar nosso trabalho de forma descompromissada”, aponta o
produtor. “A gente faz o que bem entende. Depender da aprovação
de alguém e ter limites impostos vai contra o objetivo
do nosso trabalho. Não acho provável que surja
uma proposta tão aberta e flexível de uma gravadora,
por exemplo. Outro ponto importante é a forma de divulgação.
É preciso levar tudo isso em conta, antes de dar um passo
tão importante”, conclui.